quinta-feira, 1 de agosto de 2013

“A última estação” (25/07/2013)

Que frio é esse que chega até os ossos. Logo eu que me armei contra as injúrias, levantei muralhas contra as mágoas, usei as palavras como escudo da alma serei acometido pela precariedade do corpo? Estarei a mercê de um bruto inverno que desconsidera minha existência e vem sobrepor o mundo com outro destino, outra realidade? E todo caminho para enobrecer a vida, todos cavalheirismos, toda educação, conquistas, imagem social, onde ficarão se não apenas isoladas neste sótão olhando pela janela em dúvida se pedem ajuda ou perdão. Se o tempo é assim escasso que valor poderia inserir neste contexto que ainda valesse a procura. Divago talvez tarde demais para fazer qualquer bem, mas sempre há tempo de revoltar-se. Já que de nada adiantou manter o espírito puro da tradicional selvageria dos sentimentos humanos, quero antes de tudo e do mais nada, renunciar-me. Há muito adio tal decisão, mas não mais preciso desta ilusão construída pelo seu olhar, muito menos de ideais que não me pertencem. Terminarei neste canto de cômodo como aqui cheguei, desnudo de princípios, de planos e de certezas. Sou natural como a estação que me bate a porta, com ciclo de vida, habitat e alimentação definida. Tudo que já pensei desconsidera essa minha essência. Fazer, construir, falar, rir, são passatempos capazes de nos distrair de nosso propósito. Não deixei filho algum, não perpetuarei nome, nem espécie. Agora me vejo indeciso se algumas dessas duas coisas me entristece. Todo animal tem um bando, todo bando tem seu inútil, por que não sê-lo? Inverno canalha me pondo contra a parede, vamos, apague minha lareira, encha de neve a minha porta, minha loucura está aposta para que possa levar tudo menos quem sou, a você não devo nada além do corpo, aos outros nem mesmo isso. Então vamos ficar neste acordo de cavalheiros, você leva o corpo que restou, sem custo, e eles levam tudo aquilo que já não sou, abdiquei ser, e me deixam a olhar o sol, a chuva e a neve nesta janela que escolhi para eternidade. 

Ass: Danilo Mendonça Martinho

Um comentário:

  1. Por mias que duvidemos, a primavera sempre vem!

    Grande abraço poeta!

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