"Poeta da Colina - Um Romântico no Século XXI"

segunda-feira, 30 de abril de 2012

“Norte” (25/04/2012)


Somos rascunhos
Traços a procura de continuação
Não há borracha no caminho
Temos que assumir toda imperfeição
Peças aparentemente sem encaixe
Mas desvios são necessários
A vida não se completa em um círculo
Começa em serra sinuosa
Termina em planícies extensas
É tudo uma questão de rumo
Nascemos sem, vivemos com
Sejamos além do horizonte


Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 23 de abril de 2012

“As Marcas” (19/04/2012)

Quando só sobrarem meus pés para partir
Terei aberto mão de todo sonho
Deixarei para trás partes que não descobri
Não terei guardado um desejo para depois
Direi que esgotou-se o sentimento
Mas sem motivos do que me tomou partido
A felicidade sempre conta com o amanhã
Terei abandonado a ela também
Serei apenas eu descalço contra as pedras da estrada
O resto de mim estará em outrem
Corpos que abrigaram abraços
No fundo de almas, totalmente perdido
Inexistente da realidade que me cerca
Caminharei demais até outro que me faça vivo
Nada é longe quando desfeito de destino
Reconstruirei a ideia de mim
Aos moldes de algum paradoxo
Desaparecerei, irreconhecível aos pares
Forjarei o fim de tudo
Depois de se sentir pleno
É a única forma de se sentir livre novamente
Eu prometo jamais olhar para trás
Não serei leviano de deixar esperanças
Agora, tudo que amei, jamais irá partir

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 19 de abril de 2012

“Paradoxos Existenciais” (18/04/2012)

Sou palavra
Entrelinha em fuga
Um subjetivo traço
Em um horizonte contínuo

Serei fiel ao verso
Mesmo que a ti tudo esconda
A verdade jazerá aqui
Impublicável e exposta

Posso ser um imaginário
Pura construção
A ficção também existe
Basta vestir a fantasia

Como ser humano
Passível de um fim
Livre nas escolhas
Incapaz de dizer o bom ou ruim

No futuro não sei
A consciência é viver
O passo não vai tão longe
O sonho faz o que quer

Indeterminado sujeito
Oculto minhas intenções
Postergo meu respirar
Num pretérito de palavras

Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 16 de abril de 2012

“As antigas primaveras” (16/04/2012)


Tonia, Odete e Virgínia eram muito amigas. Meio fora de época exibiam seus azuis, brancos e grenás em grandes coroas nos cabelos armados e volumosos em um demodê quase que ultrajante. Os perfumes fortes eu conseguia sentir da minha janela toda vez que passavam. Mas também não posso negar a graciosidade de suas maneiras e como enfeitam o chão onde se encontram. Passa o vento e elas delicadamente balançam seus braços colocando tudo de volta ao seu lugar. Tomavam sorrisos desatentos, olhares apaixonados. Ah, quantos sonhadores estiveram sob suas vistas, elas até sussurravam alguns conselhos. Teimosas sem dúvida, coisas da idade, ninguém sabe bem ao certo quanto tempo vivem ali. Não sei quando comecei a observá-las, mas elas falam da vida muito antes de mim. Fofocam feito passarinhos que cantam entre os galhos, quando ouço algum chiado, já sei que as três velhas amigas se encontraram no jardim.

Um dia desses as encontrei desavisadas espalhando flores pelo chão da praça, já faz tempo que passou a primavera, mesmo assim, por capricho talvez, forraram o chão de pétalas coloridas: azuis, brancas, e grenás. Foi uma alegria especial a um casal de namorados que deitados se divertiam ao despetalar mal-me-queres agora que já não os importava mais. Um velha senhora alcançou uma flor azul turquesa e pôs em seus cabelos abrindo um sorriso que parecia vir de muito tempo no passado. Um poeta, em dúvida e conflito, se deparava entre as dores das flores tiradas de seus lares, e os amores conquistados pelos buquês. Assim eram estas velhas amigas que mudavam qualquer rotina com seus enfeites. Chegaram até um dia a competir para ver quem tinha o mais bonito, mas há muito tempo aprenderam a dividir o mesmo espaço. Agora depois de velhas, resolveram brincar com alguns distraídos que passam sem saber onde estão, achando que talvez ainda possa ser verão. Divirto-me, toda vez que abro a janela e ao vê-las dançar entre os ventos vendo minha atenção aos seus trejeitos e espero em silêncio a travessura, coisas de velhas malucas, coisas de crianças eternas.

Hoje abri minha janela para o canteiro da praça recortado pelas avenidas. Foi só isso que avistei. As formosas madames de outro dia que imperavam em pleno outono estavam irreconhecíveis. Galhos secos, tronco curvado, e o chão aparecendo a terra. A poesia de minha vista tinha se desfeito durante a noite. Mas sorri. Não é a primeira vez que isso acontece, e elas sempre me entregam em segredo que voltam. Elas sempre voltam e eu fico aqui a espiar.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 12 de abril de 2012

“Além”(11/04/2012)

É fato que nos deixaremos
O corpo é morada transitória
Os sentimentos dissiparão
O amor uma fotografia
A amizade uma carta amarelada
A terra guardará as lágrimas
O sorriso levarei comigo
A história confundirá nossos nomes
Filhos de uma época
Como é difícil vencer nosso tempo
O agora é algo incurável
Quem falou em eternidade
Criou uma palavra não um significado
O mundo revogará o “nosso”
Objetos, espaço e sentimentos
Tudo padecerá em uma memória fraca
Na cadeira de balanço de um idoso bisneto
Tenho sorte de ter encontrado tudo aqui
Ao alcance do olhar de sonhos
Me importa o teu abraço
Quero é reler suas cartas
Quero viajar aos domingos
Marcar no corpo a felicidade
Pois a palavra já parte sem mim
Um verso para depois da vida
Não me fará diferença

Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 9 de abril de 2012

“Uma Lenda” (05/04/2012)

Há muito tempo atrás existiu um sonho. Era de uma vida que deixava de ser só. Uma troca de um mundo por uma única companhia. Nesta existência se completavam os corpos, as almas, as palavras. Neste lugar havia espaço para se construir de tudo, até mesmo um futuro. Era uma imensidão preenchida com uma natureza sem fim. Existiam limites irrelevantes e regras ignoradas pelo olhar destes dois que figuravam distantes do comum. Tudo era diferente de dentro daquele jardim que criavam. O sol uma alegria e a chuva uma bênção, o vento uma necessidade e o frio um alívio, o sorriso espontâneo e o choro inevitável. Não existiam pormenores. Tudo era franco, aberto e possível. Nunca construíram uma rua sem saída se quer. Viviam uma continuidade sem esperanças de eternidade. O fim sempre fez parte. Mesmo assim o amanhã jamais invadiu o hoje e cada passo foi escolhido ao seu tempo. Encheram de cores sua história, fizeram do tesouro um invisível. Guardaram no outro toda força, toda paciência, todo carinho, sentimento por sentimento que os faziam crescer. A confiança que o próximo não seria vão mesmo se decidisse partir. As intensidades eram ausentes de propósito, atitudes realmente livres. Como poucos podiam ser plenamente, pois na presença jamais poderiam ser pela metade. Não era uma mão completando a outra, eram dois inteiros que em si encontraram e decidiram compartilhar o mesmo pedacinho de vida.

Este sonho acordou nos lábios de um contador de histórias. Ganhou diferentes versões pelos locais onde passava a procura da realidade. O conto alimentava os pés dos ouvidos e sua existência se tornou tão crível quanto seu imaginário. O homem não descansou enquanto não terminou de percorrer o mundo atrás daquela utopia. Em diferentes línguas sussurravam essas entrelinhas. Cada pessoa levou consigo um pedaço e construiu seu próprio sentimento. A fala reinventava a vida um dia imaginada. Então em uma noite deitou-se ao lado de cada alma este sonho coletivo. Amanhecia pela primeira vez o amor e ninguém jamais esqueceu.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 2 de abril de 2012

"Ser ou não ser" (30/03/2012)

Se um dia descobrir que não amo
Terei construído um jardim de inverno
Uma beleza presa em uma redoma
Verei a chuva escorrer no vidro
Incapaz de distinguir das lágrimas
Onde plantei a felicidade?
Prometa que mesmo sem o toque
A rosa seguirá seu curso
A dor é um sentimento que também nasce
O provável é que essa não tenha fim
Cultivarei ela como o amor
Preservando a parte viva de mim
Todo resto terá partido
No mesmo olhar que se fechou
Atrás da porta deixarei a lembrança
Partindo sem nada que não me pertença
O que se vive a dois jamais caberá em um
Um armário vazio de sentimentos
Um espelho vazio de sentido
Descobrirei o lado oco da alma
Sem amor não existirei em mim

Ass: Danilo Mendonça Martinho