"Poeta da Colina - Um Romântico no Século XXI"

quinta-feira, 30 de junho de 2011

“Feriado” (27/06/2011)

Estava a espera da solidão
O todo resumido ao nada
Um vento que tudo arrasta
Uma alma mais próxima da vida

Foi quando acordei no silêncio
Entre janelas abandonadas
Entre corpos apenas vacantes
O concreto a se esfriar do movimento

Pé ante pé arrisquei-me
A urbanidade era inofensiva
Sem as peças de seu caos
O mundo cabia no meu quintal

Estufei o peito de puro desejo
Fiz do silêncio meu sonho
Fiz do vazio meu lar
Construí no feriado minha paz

Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 27 de junho de 2011

“Fim de Expediente” (20/06/2011)

A vida é boa
Esse toque de sol no rosto
A gargalhada depois do choro
As flores no jardim
Esse sorrir sozinho
A janela de esperança
O suspiro que ainda acredita
Essa brisa de fim de tarde
O aconchego da alma
O sonho que descansa
Esse céu avermelhado
A sombra do que somos
O horizonte infinito
Esse respirar em paz
Aceitar nossas culpas
Perdoar em nossos abraços
Esse olhar a se perder
Sem pedir muito
Algo para chamar de paz

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 23 de junho de 2011

“Fração” (19/06/2011)

Não há fuga
Palavra que enobreça
Verdade que justifique
Essência que se assuma
Vontade que demonstre
Somos vis
Ao menos podemos
Perturba-me essa perspectiva
Que escapa dos meus princípios
Faz de tudo uma razão
Do nosso olhar um lugar comum
Limites
Não podemos ser sempre poesia
Tudo pode ficar incompleto
Sem ninguém escapar ileso
O justo é uma noção parcial
Sofremos
Mas continuo caminhando
Resumido ao que sinto
Ao breve suspiro
Que preenche o vazio

Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 20 de junho de 2011

“Estudo sobre a Alma” (16/06/2011)

O que nos faz diferentes? Aparências enganam, e a imagem é produto alheio. Um olhar de lamento ainda pode amar. O que nos leva ao âmago. Trilha final de cada simples ação. Acreditava que bastava um sentir para nos separar de todo resto. Todo mundo magoa, todo mundo sofre, a dor é inevitável como tudo que se propõe a promessa de sentir. Há lugares aonde não vamos, mas não quer dizer que não se alcance. Iludi-me com princípios, adotei os mais nobres, tratei-os como filhos, bastava almejar o melhor. Todo mundo é vil, todo mundo mente, a mudança é inerente a qualquer pessoa que propõe a caminhar. Só por que a bússola aponta para o norte, não quer dizer que permanecemos na mesma direção. Sobrou-me o sonho. A idealização trabalhada nos detalhes. Cada sorriso, cada abraço, cada palavra a orquestrar um plano, a simular uma felicidade. Todo mundo acorda, todo amor acaba, o fim só existe a partir do começo. Não é porque conseguimos imaginar que resistiremos à realidade.

Nada te salvará de ser, humano.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 16 de junho de 2011

“Deserdo” (16/06/2011)

Tenho palavras
Mas abdico
Não importam suas verdades
Jamais soarão sinceras
Não quero prolongar a dor
Nem me acostumei a ser mágoa
E isso basta
O argumento sempre será vão
Quando perante o sentimento
Entrego-me ao tribunal
Podem julgar o corpo
Esquecer-me num canto escuro
É simplesmente justo que o façam
Não tenho defesas
Chega de apelos e eufemismos
Cansei de discutir o ponto.
Não há nada mais aqui
Que me desculpem as palavras
Mas ficarei com o silêncio

Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 13 de junho de 2011

“Príncipe” (07/06/2011)

A coroa é um fardo
Disfarçar sorrisos
Engolir palavras
Sempre estender mão
Abdicar egoísmos
Moderar abraços
Medir palavras
Evitar reações
Decidir pelo outro
Dispor de sacrifícios
Sentir calado
Amar sufocado
Fazer reverências
Apontar o caminho
Não ter destino
Abrir a porta
Beijar o rosto
Deixar passar
Ser cavalheiro nesse mundo
É ser algum tipo de solidão

Ass: Danilo Mendonça Martinho

sexta-feira, 10 de junho de 2011

“Rancor” (02/06/2011)

Amargo um coração
Cheio de passados
A lembrança cética
Tudo que só doeu
Temo teu sabor
Eis o impossível
O que não estou disposto a arriscar

É uma triste realidade
Questiona qualquer sonho
Quem vai levar a ilusão?
Não vai bastar o abraço
Hesitarei até o fim
Vou pedir um tapa na cara
Qualquer coisa sincera
Pois um dia me negaram o possível

Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 6 de junho de 2011

“Tudo, se escreve com Tu” (31/05/2011)

O amor é sensível, um suspiro no ar. Um olhar que se alonga para alma. Mesmo reconhecendo-o não posso defini-lo. Ele é algo completo, alheio as palavras e rimas. Amor é um inteiro sem corpo e alma. É um cessar de lágrimas, é curar um vazio. Tudo que te torna todo. É fazer o Sol nascer novamente por de trás de um sorriso. É algo que não pede, nem se quer fala, mas encaixa. Como um par de mãos que se entrelaçam. Ele não quer provas, nem mesmo sacrifícios. Amor é um pedaço que sempre foi seu. Mas não confunda com posse. É músculo involuntário como o coração. Com amor se vive, mas não se controla. Ele soma, agrega, quer mais, te torna grande. É o que você passa a ser, não o que você abandona. Ninguém precisa ceder. O amor te faz segurar a mão. Ele só precisa do encontro para se tornar finalmente um. Único.

O amor é tudo menos concessão.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 2 de junho de 2011

“Esquecer” (01/03/2011)

Já me faltam alguns rostos. Também não posso garantir os momentos. Meu medo é essa certeza de que é possível esquecer. Até mesmo o que hoje é dor custa-me deixar partir. Não há nada nessa vida que se possa agarrar. Caminha-se junto e esta é nossa impressão do “para sempre”. Há tanto que queremos para nós, que as vezes o que nos escapa nem é por maldade. Algumas vezes a risada dá lugar para um beijo, e este para um abraço. Gastamos também muito espaço com os lamentos, mas é fato que são necessários. De pensar que os primeiros anos de vida a gente nem guarda e que da infância ficam memórias que não entendemos por que. Quem autorizou essas trocas, não deveria ser uma escolha minha? É verdade que não se deve viver no passado, mas perdemos tanto o olhar nesse horizonte que mal sobra tempo para lembrar. Nesse meio tempo são tantos sorrisos que se perdem, tantos corações que se distanciam. Tenho medo de acabar com um passado assim: frio, vazio, sem saber reconhecer o que foi meu. Ao mesmo tempo não consigo afastar a consciência de que algo me escapará e que não terei controle do que. Fotografo e guardo momentos. Mas diante do meu quadro não me chegam imagens, apenas essências. Fotos trazem sentimentos e sensações. A imagem é só passagem. Nos colocaram nesse mundo sem manual, sem validade, sem garantias. Tanto o bom quanto o ruim pode me faltar. Diferentes estímulos remetem a momentos aleatórios. E no fim podemos ser uma história que ninguém vai saber contar. Este é nosso risco.

Ass: Danilo Mendonça Martinho