"Poeta da Colina - Um Romântico no Século XXI"

terça-feira, 9 de outubro de 2018

“Será?” (05/10/2018)

Talvez seja isso
Uma cordialidade de fachada
Uma imagem pro vizinho
Uma risada para o chefe
Um carnaval de máscaras

Construímos aparências
Sem construir caráter

Talvez seja isso
Nos movemos pelo ódio
Gostamos de dar rasteira
Do gosto do sangue do inimigo
A sociedade do desprezo ao próximo

O que pensamos ser bolha digital
É provável que seja retrato fiel

Somos essa força primitiva
Agindo para sobreviver
Temos o privilégio do pensamento
Mas não sabemos combater o instinto
Só justificamos o animal em nós

Então que seja isso
Na cabine encontre teu reflexo
Encontre tua raiva e teu medo
Liberte tua vergonha e silêncio
Seja cru e real

Quem sabe diante nossa verdadeira face
O horror nos faça mudar


Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Procrastinação” (17/09/2018)

O inconsciente não deixa esquecer
Guarda uma coleção de metades
Antecipo o limite do tempo
Justificando o que não começo
Escolho o sono não o sonho
Exponho minhas opiniões para paredes
Coletivas do time virtual
Entrevistado em talk-show
Explicações para o chefe
Argumentos para contratação
E em uma sombra da realidade
Convencido que o agora não me cabe
Tento acordar nesse dia improvável
Na espera disfarçada de esperança
Escondo todas minhas verdades
Vítima das circunstâncias
E assassino da vontade

É uma luta desesperadora
Imaginar tantos gostos
Até chegar a sorrir no escuro
Enquanto a vida te escapa
Nos pensamentos do futuro
Teu corpo paralisado
Reorganizando ações a cada instante
Os planos todos traçados
Mas nenhum pé no chão
É triste ver tudo de perto
Incapaz de ir além da imaginação

Eu vim ver o fim
Ao menos uma vez
Não contei o meu destino
Não esperei aprovações
Comecei a caminhar
Descansei mais que precisava
Mas segui em frente
Antes que pudesse questionar
Talvez ainda não seja a cura
Mas realizar-se é um começo

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

“Dividido” ( 02/10/2018)

Eu tenho procurado palavras
Algo bem no meio do bom senso
Diferenças são personalidade
Somos comuns no desejo
Mas antes do amor somos contra
Sabemos onde colocar nosso ódio
Só que estamos perdidos com a esperança
Quando não é a paixão que nos move
Quando respondemos violência com opressão
Insegurança com medo
Opinião com censura
Diálogo com ignorância
Respeito com indiferença
O que construiremos sobre o alicerce da raiva?
O que chamaremos de nação?

Desisti dos versos nesse deserto
O meio do caminho
Virou uma completa solidão
Um silêncio ensurdecedor
A única palavra que resta é liberdade
Meu lugar é ao lado dela
E só não me calo
Para não perdê-la também


Ass: Danilo Mendonça Martinho

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

“Anseio” (13/09/2018)

Seria leviano dizer
Que entendo a avalanche do horizonte
Pois para mim tudo para
A vida se arrasta nos milímetros
Exibindo as brechas nos detalhes

Só que eu leio os olhares
Enxergo as aflições e desesperos
Vejo a necessidade do abraço
Proteger-te dos teus olhos fechados
Que fazem do futuro realidade
Do medo a sua condição

Procure pela minha mão
Por mais que pareça impossível
Por mais que seja incerto
Não acredite nos teus olhos
Não ouça tua razão
Apenas segure firme meu bem
E confie na canção

O horizonte ainda descansa
O amanhã não te alcança
A vida segue mansa
Teu coração a salvo da dor
A tristeza é uma possibilidade
Mas jamais a única verdade
Que carrega um amor

Ass: Danilo Mendonça Martinho

terça-feira, 11 de setembro de 2018

“O Tempo das Coisas” (02/09/2018)

As coisas não tem idade
Elas vivem da lembrança
Dos laços que criam
Dos momentos que compartilham
Algumas passam de mãe para filha
Outras tantas de irmão para irmão
Elas podem vencer o tempo
Mesmo que mudem nome e utilidade
Sua única ligação é o sentimento
As coisas apenas estão
Algumas, privilegiados monumentos
Outras clipses em documentos
Cartas em uma caixa de sapatos
Guarda-chuvas perdidos no metrô
As vezes parece um trapo velho
Mas carrega todo nosso coração
O que as coisas apenas temem
Talvez como todos nós
É desaparecer na memória
Aos poucos se desfazer no tempo
Perder a consciência de existir
Mas isso não é uma escolha
E mais do que esquecer e lembrar
Precisamos nos preocupar em viver e sentir

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

“Urbana” (31/08/2018)

Um amigo me disse
Que a poesia devia permanecer à margem
Talvez por isso combine com os muros
Nossos limites diários
Nossa ilusão de segurança
Mas a poesia segue nesta margem
Pois ignoramos nossas cercas
Nos cercamos de verdades farpadas
Acreditando estar a salvo da solidão
A poesia na parede fria
Recebe olhares desenganados
Ela encara e não desiste
Não importa o sentido desde que o faça
Ele embarcou para Barra Funda
Muita gente, muito tempo
Muita realidade que vem de dentro
Caem os filtros, caem as máscaras
E na borda da loucura
Quem resiste é o verso
Cru e sem açúcar
Coloca teu pé no chão
Lembra que há vida na próxima estação
Mesmo que seja apenas poesia


Ass: Danilo Mendonça Martinho

sábado, 1 de setembro de 2018

“Lei Universal” (31/08/2018)

Perdoe-me por todas promessas tolas que já fiz
Acreditei que a vida era questão de troca
Acreditei no sacrifício pela recompensa
Que tua justiça era feita de contra-pesos
Eu cai tantas vezes do precipício
Pensando que poderia voar
Quando o propósito era, na verdade, se entregar
Se pulei, o fiz por mim

Eu realmente acreditei que estava agradecendo
Que as coisas boas da vida não podiam ser de graça
Que não poderia conquistar nada sem abandonar um prazer
Mas não foi pedido nada pela minha reza
E hoje entendi que fiz pela minha paz

O mundo é um equilíbrio de energias
Mas não obedece nenhuma lei de mercado
Tudo que a vida mais quer de nós
É que façamos tudo com a devoção do amor
Que mergulhemos em nossos sonhos sem restrições
Doemos a essa nossa existência o nosso melhor e mais sincero
E as conquistas, a felicidade e plenitude que virão
Serão consequências e nada além disso

Desculpe-me demorar a compreender
Quando uma força intercede por nós, o faz de boa vontade
Esqueça agradecimentos, sacrifícios, dívida
Só é preciso ao interceder no mundo, fazê-lo com a mesma boa vontade

Ass: Danilo Mendonça Martinho