sábado, 20 de agosto de 2016

“Dúvida” (26/07/2016)

Hoje estou as avessas com a esperança
O peso do corpo não compensa o da alma
Ignorei o alarme e o vazio da cama
Olhei bem meu sonho, sem saber o que era verdade
De olhos fechados arquitetei bobagens
Trocar o canal dá impressão de controle
A vida poderia se reduzir em um único ato
Mas tem conta em cima da mesa
A culpa debaixo do travesseiro
O tempo que te arrasta pelos deveres
O mundo segue, mesmo sem vontade
Posso fechar a porta mas o coração continua aqui dentro
Contando mil histórias de um amanhã
Nesse eterno talvez que ou me mata ou me abandona

Ass: Danilo Mendonça Martinho


segunda-feira, 25 de julho de 2016

“Perdão” (20/07/2016)

Pelas tuas costas vi meu sonho
Era tarde para o perdão
Não soube te alcançar
E agora sou eu que fico perdido

A humanidade é um conceito
A verdade é a distância
Nossa caridade tem limite
Nosso amor tem fronteiras

Minha reza não mudará tua vida
Minha penitência só resolve minha culpa
Mas tua partida carregou minha alma
E atrás dela poderei mudar um dia

Obrigado e que protejam teu caminho
Que não te falte a força e coragem
Que me falta todos os dias
Ao encarar a miséria e julgar não ser minha

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 14 de julho de 2016

“Trocado” (29/06/2016)

Moeda no bolso não faz ninguém solidário
Não tem valor que compra coração
Geralmente é na falta do tostão que se divide o pão
A distância é gigantesca do que sobra, do que nada tem
É preciso ímpeto, vontade, oportunidade
Mas acima de tudo é preciso despretensão
Pois o que carregamos no bolso não é para troca
Doar a alma é o único jeito de mover outra vida

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 7 de julho de 2016

“Alívio”(28/06/2016)

A gente se esquece até o tamanho de um nada
Enterra o que sobra no sofá
Chama o amanhã de nunca mais
E faz tudo isso com gosto
O prazer transbordado de culpa
Como me cansa a consciência
A certeza de ser senhor do próprio destino
E se for menos da possibilidade?
Se abandonar as ambições
Posso ficar mais com o que me faz feliz?
No fim a vida não é sobre trocas
Muito menos sobre essas escolhas
É no meio do próprio julgamento de valores
Encontrar o que possa chamar de liberdade

Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 4 de julho de 2016

“Anti-Spam”(13/06/2016)

Não sou um robô
O que mais o clicar de um botão define?
Sei diferenciar pizzas e montanhas
Isso me faz mais humano?

Há muito mais que não sou
Mas a internet dá voz sem atenção
Cabe-me responder o desnecessário
Na desconstrução eletrônica do ser

O humano sempre foi wireless
O raciocínio é de enganar sentimentos
A palavra é a ilusão de multidões
O sublime é programar o que poderia ser livre

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 30 de junho de 2016

“Encharcado” (06/06/2016)

A chuva começa
Vem o medo da poça
Do guarda-chuva virar
Entre quem corre e quem desiste
A natureza não faz distinção
Cai em cima para depois perguntar
Disfarcei-me de árvore
Imóvel e braços abertos
Aproximei dela como se fossemos um só
Mas minha parceira estava anoréxica
“Ainda é outono meu caro poeta
E não tem mais folhas para segurar”

Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 27 de junho de 2016

“Miopia” (05/06/2016)

Caeiro falava sobre o que via
Falava das cousas sem mistério
Desconheceu o intransponível do concreto
As paisagens dos seus olhos
Se escondem do arranha-céu...
Opa! Onde já se viu palavra pregando o impossível
Aliás hoje tem mais significado que palavra
E sem dúvida muito mais ilusão
Não conseguiria falar o que vejo nem se abrisse os olhos
O homem construiu sobre as verdades
Mudou geneticamente as nossas manhãs
E o Sol que nasce hoje sobre seu rebanho
Tem a cor dos filósofos
Cheio de possibilidades e nenhuma definição

Ass: Danilo Mendonça Martinho