quinta-feira, 14 de julho de 2016

“Trocado” (29/06/2016)

Moeda no bolso não faz ninguém solidário
Não tem valor que compra coração
Geralmente é na falta do tostão que se divide o pão
A distância é gigantesca do que sobra, do que nada tem
É preciso ímpeto, vontade, oportunidade
Mas acima de tudo é preciso despretensão
Pois o que carregamos no bolso não é para troca
Doar a alma é o único jeito de mover outra vida

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 7 de julho de 2016

“Alívio”(28/06/2016)

A gente se esquece até o tamanho de um nada
Enterra o que sobra no sofá
Chama o amanhã de nunca mais
E faz tudo isso com gosto
O prazer transbordado de culpa
Como me cansa a consciência
A certeza de ser senhor do próprio destino
E se for menos da possibilidade?
Se abandonar as ambições
Posso ficar mais com o que me faz feliz?
No fim a vida não é sobre trocas
Muito menos sobre essas escolhas
É no meio do próprio julgamento de valores
Encontrar o que possa chamar de liberdade

Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 4 de julho de 2016

“Anti-Spam”(13/06/2016)

Não sou um robô
O que mais o clicar de um botão define?
Sei diferenciar pizzas e montanhas
Isso me faz mais humano?

Há muito mais que não sou
Mas a internet dá voz sem atenção
Cabe-me responder o desnecessário
Na desconstrução eletrônica do ser

O humano sempre foi wireless
O raciocínio é de enganar sentimentos
A palavra é a ilusão de multidões
O sublime é programar o que poderia ser livre

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 30 de junho de 2016

“Encharcado” (06/06/2016)

A chuva começa
Vem o medo da poça
Do guarda-chuva virar
Entre quem corre e quem desiste
A natureza não faz distinção
Cai em cima para depois perguntar
Disfarcei-me de árvore
Imóvel e braços abertos
Aproximei dela como se fossemos um só
Mas minha parceira estava anoréxica
“Ainda é outono meu caro poeta
E não tem mais folhas para segurar”

Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 27 de junho de 2016

“Miopia” (05/06/2016)

Caeiro falava sobre o que via
Falava das cousas sem mistério
Desconheceu o intransponível do concreto
As paisagens dos seus olhos
Se escondem do arranha-céu...
Opa! Onde já se viu palavra pregando o impossível
Aliás hoje tem mais significado que palavra
E sem dúvida muito mais ilusão
Não conseguiria falar o que vejo nem se abrisse os olhos
O homem construiu sobre as verdades
Mudou geneticamente as nossas manhãs
E o Sol que nasce hoje sobre seu rebanho
Tem a cor dos filósofos
Cheio de possibilidades e nenhuma definição

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 23 de junho de 2016

“Origens” (02/06/2016)

Ando pensando demais no que não ando fazendo
Ando fazendo menos coisas ainda
Deve estar sobrando poesia em algum lugar
Tantos são os pensamentos que evito
A verdade se esconde num fechar de olhos
A dor por outro lado não conhece saída
Alguma hora deixo tudo para trás para sobrar eu
E independente de qualquer felicidade
Confundir o silêncio com um pouco de paz
Depois que me ausento o mundo escurece
O chão está molhado e a noite fria
Foi num dia desses que não estava onde me deixei
Toda água da chuva volta para o céu
Quem sabe num dia de calor minha alma volte para casa
Cada verso que esqueço, me esqueço num canto da vida
Que da terra ao menos floresça o que faça sentido
Minha raiz sempre foi essa caneta
E mesmo o mais alto fruto, aqui há de voltar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

quinta-feira, 16 de junho de 2016

“Fra(n)quezas” (15/05/2016)

Um dia uma garota que conheci, e digo garota pois isto era o quão jovem era meu coração nos romances, me disse não, me disse como tantas outras em um silêncio e distância dos quais me escapou de qualquer palavra em um ato covarde de ver uma paixão passar como se fosse uma tempestade lá fora, esperando algum tempo bom. Foi neste silêncio que te conheci, foi na esperança desmedida de ser feliz que te encontrei, não foi a ideia de permanência, mas de me desentrelaçar dos meus conceitos, de liberdade, que abracei o teu beijo e teus braços. Foi a ideia de me permitir, sem procurar as consequências. Confesso que fui ingênuo. Como meu garoto coração ainda o era. Você partiu e com medo que ficasse alimentando nosso momento como algo contínuo, tentei evitar as palavras, tentei me desviar do compromisso, tentei da mesma forma covarde me esconder de um coração que conquistara. Ciente do pecado, ou envolvido na solidão, mergulhei. Pois se alguém que vivia ao meu lado, aos meus abraços, as minhas palavras e sorrisos não me queria.....existia alguém que a milhares de quilômetros, depois de poucos dias, sem saber muito mais do que meu nome e poesia, estava disposta para uma paixão. Mergulhei, e mergulharia de novo. O meu erro foi manter meu plano só para mim. Eu estava ali tentando viver aquela paixão, tentando ser feliz em vez de apenas me lamentar. Existia alguém que me queria e por que não tentar viver o romance? Eu vim a descobrir, que o amor de um lado só não sustenta duas pessoas. Eu juro que quis que fosse minha saída da melancolia, que fosse o caminho para felicidade, para o amor idealizado. Mas não era, simples como foi te encontrar, também te perdia, e me cabia a árdua missão de trazer a tona e a consciência o final daquela história que mergulhei de cabeça, e te levei junto, mas só eu sabia que poderíamos atingir as pedras e não o mar. Terminei de uma maneira que contornasse essa verdade e a falta desta sinceridade veio a me perseguir meses depois quando apareceu na porta de casa, ainda tentando, ainda ligada aquela ilusão que inadvertidamente criei. Fui cruel, fui pequeno, fui vil, como todo dia alguém já foi, mas jamais vão querer admitir. Fui um qualquer, fui um clichê, fui uma emoção arrependida transformada em uma raiva cega e no desespero de encontrar um ponto final. Não espero te encontrar. Não estou pedindo desculpas. Pois hoje meu homem coração está amadurecido, mas foi porque um dia o garoto cometeu os seus erros. Erraria contigo de novo, pois foi bom, embora tudo que tenha feito de ruim, embora toda mágoa, eu aprendi, eu cresci e vivi aquela paixão. Não quero te tirar a tristeza, nem te causar nenhum perdão. Quero na verdade até que me odeie, que me seja indiferente, que trate ao desgosto. Mas que faça pelos motivos certos. 

Ass: Danilo Mendonça Martinho