segunda-feira, 11 de junho de 2018

“Cheiro de chuva no asfalto” (27/04/2018)

Eu conheci quem gostava de cheiro de grama cortada, me falaram que o cheiro de natal era igual lustra-móveis. Sempre admirei essas memórias, pois eu mesmo também abro um sorriso bobo nas simplicidades da vida. Só que na minha sina me apaixonei por cheiro de chuva no asfalto, o que, no consenso, não existe. Na terra, na planta, na pele, mas jamais no asfalto. O concreto não se mistura, não é natural, não adquiri odor. Mesmo assim minhas memórias mais antigas, meus sentimentos mais puros chegam nesta garoa fina que cai neste chão impermeável. Algumas vezes no meio, outras com o queixo encostado no parapeito, foi aqui que senti a essência da minha vida. Chegar onde não se chega. Dar sentido ao invisível. Fazer de todo impossível a chance de ser feliz. 

Ass: Danilo Mendonça Martinho

domingo, 20 de maio de 2018

“Ponto de Partida” (20/04/2018)


Não existe nada mais estranho do que abandonar um peso. Aprendemos a nutri-lo, aprendemos a contar com ele, colocá-lo na balança em toda decisão como parte indivisível e insuperável. Deixá-lo é quase não se reconhecer, fomos mais tempo com do que podemos imaginar sem. Somos pessoas apegadas talvez até mais as nossas dores. A felicidade nos escapa, mas dormimos abraçados aos nossos medos. Quem sabe esse seja o pedaço que tanto me falta, não meu sonho ou desejo, mas sim essa parte que nunca deveria ter sido minha. Habituei-me, confesso. Há um conforto na melancolia, como vítimas não precisamos tratar as causas, temos sempre justificativa. Agora me sinto de volta a vida selvagem, tenho que agir para sentir, perdido nesse vazio onde tenho a chance de construir algo completamente meu. Deixar um peso para trás é aquele momento esquisito quando tiramos o gesso de uma perna. Parece uma coisa nova, muito formigamento, leveza, buscamos na memória, mas logo percebemos que para seguir em frente vai ser preciso um novo equilíbrio. 


Ass: Danilo Mendonça Martinho

sábado, 12 de maio de 2018

“Alma” (17/04/2018)

Eu preciso te falar sobre o meu querer
Desisti de tentar e comecei a fazer
Ainda não entendo o que deixo para trás
E não me importa se não puder levar você

Te quero até as últimas consequências
Me leve até as verdades e inocências
Me encontre de novo, me reconheça
Ou como último pedido me esqueça

Eu me nego ao que devo
Eu me entrego ao sorriso
Cansei de tudo que preciso
Eu só quero ser feliz

O inconsciente me trai
Abre todo meu peito
Revela o medo que corrói
Liberta a chance de ser melhor

A vida não tem muito segredo
É mostrar o que somos
Agir pelo nosso sonho
E saber o que guarda nesse espelho

Ass: Danilo Mendonça Martinho

sábado, 5 de maio de 2018

“Convexo” (13/03/2018)

Este espelho dá medo
Enxergar demais
Encarar as boas verdades
Lutar contra o inconsciente
Descobrir-se insuficiente

Conhecer-se é algo sério
Um compromisso para vida
Palavras que não te deixarão
Vão me manter acordado
Ou vão trazer minha paz?

Não julgue a covardia
A tristeza é forte
O passado imutável
Nos escombros da alma
O que terá sobrevivido?

Tempo demais nesse espelho
Tenho medo de reconhecer
Detalhar todas as falhas
Despido pela sinceridade
Ainda assim....não querer mudar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

sábado, 21 de abril de 2018

“Jeitinho” (06/03/2018)

A gente se perde no todo
Nossos valores, princípios
Aceitamos menos
Distorcemos limites
Pesamos a consciência do outro
Mas libertamos a nossa
Com uma tranquilidade assustadora
Somos indivíduos exemplares
Somos comuns no coletivo
Apenas mais um filho de Deus
Que também falha e peca
Diluímos assim nossa responsabilidade
Na multidão a vergonha não tem cara
Bem-vindo à sociedade de aparências
Defensora da honra, moral e justiça
Só não esqueça de pagar na saída
Aproveita que estão pelo mesmo preço

Ass: Danilo Mendonça Martinho

sábado, 14 de abril de 2018

“Desilusão” (02/03/2018)

Cansei de me arrepender
Descobri tarde a ilusão
Não há alternativa perfeita
Nem outra versão mais feliz
Não há certeza do sucesso
Só porque aqui encontrei fracasso
O arrependimento é apenas uma ideia
É jogar para o passado a responsabilidade
É uma fábula da imaginação
Uma alternativa sem garantias
Que tomamos como verdade absoluta
A imaginação é um lugar bom
Sonhos de sucesso
Invariavelmente vencemos
É isso que projetamos do outro lado
A realidade não tem a menor chance
Como não se arrepender disso?

Risquei do dicionário
Não faz sentido esse peso
Incerteza do passado
Se é para imaginar algo melhor
Tem um futuro inteiro para isso

Ass: Danilo Mendonça Martinho

sábado, 7 de abril de 2018

"A calada da noite consente" (07/04/2018)

Quando o povo gritou fora
Moveram-se os céus e montanhas
Quando o povo gritou fora de novo
Ficou no vácuo da ilusão
Dois lados e a mesma decepção

Tuas palavras são apenas fantoches
Convenientes ao poder de poucos
Inúteis a necessidade de muitos
Aqui somos milhões,
mas lá são milhões no bolso

Esse discurso de rancor e menosprezo
Só serve para perfil de rede social
Para ser cidadão precisa de mais zelo
Tomar conta do distrito federal

A língua afiada só serve aos outros
Que separam o que podia ser um só
Temos essa fraqueza em comum
Ceder ao ódio e não a compaixão

Quando o povo voltou a gritar
A decisão já tinha sido tomada
O que era pra ser um país melhor
Passou a ser tarde demais

Ass: Danilo Mendonça Martinho