terça-feira, 3 de maio de 2016

“Veranico” (08/04/2016)

Mas que calor!
Ah, mas que outoninho vagabundo!
Mas o que fui dizer
Ele veio me cobrar de manhãzinha
Os amores que já vivemos
As verdades que ele me esconde
Perdão pelo impensado
Mas você vem pregando peças
Vem me ofuscando os olhos
Deixou-me com suor e sem lágrimas
Cadê toda tua melancolia?
O Sol sem força e o céu sem graça?
Quero garoa em tarde eterna
Um vento para usar moletom
Um chocolate quente enterrado no sofá
Uma tristeza leve para equilibrar o dia
Tua data já é longa passada
O que irá me inspirar visita tão curta
Logo agora que preciso da palavra
Cresceu em ti a adolescência
Ser veranico para ficar na moda
Ah, seu outoninho sem vergonha
Não se faça de besta
Que te faço poesia!

Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 25 de abril de 2016

“Paraíso digital” (04/04/2016)

O amigo no trabalho mandou avisar
Hoje é só ele e Deus
Perguntei se era melhor cópia oculta
E se o endereço é arroba gmail

Será que mudaram o paraíso?
Pois sem wi-fi e cinema 3D ninguém fica
E se formos depender de valores
Nelson Rodrigues por lá não se estica

Acredito que sejam progressistas
Não nesta área de tecnologia
Mas com um pouco mais de paz

No fim mandei a cópia por educação
Deus não tem cara de videografista
Prefere as coisas feitas a mão

Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 18 de abril de 2016

“Hora Marcada” (28/03/2016)

Se a cinco minutos tivesse escolhido
Aquilo que não existia tempo para escolher
Teria dado tempo já que se passaram dez
Mas estou perdido sem saber quanto me falta
O tempo sem ser previsto pode acabar ou ser infinito
Agora me culpo por não ter priorizado a vontade
Mas que tempo é esse que posso contar agora
Já que antes nada disso existia
É injusto julgar meu passado pelo tempo
Principalmente por aquele que não era meu
O meu depois era mais pra lá deste agora
O que fazer com todas as sobras?
Quantos pedaços de vida não são meus?
Quantas escolhas não faço pelo tempo limitado?
Se agora eu passo sede
Pelo refrigerante não comprado
Será que meu sonho não chega
Pela hora que acordo?

Ass: Danilo Mendonça Martinho

terça-feira, 12 de abril de 2016

“Admito” (18/03/2016)

Deus, eu tenho um sonho
Talvez não seja muita coisa
Se bem que nunca soube o que seria demais
É quase para ser feliz
É quase para ser para sempre
Mas tenho medo de sonhar acordado
Do desejo estar vestido de fantasia
Da vontade ser apenas uma questão de proximidade

Deus, eu sonho demais
Com sorrisos fáceis
Com dinheiro no bolso
Com família e esperança
Numa vida que é uma só
Mas não sei o que me cabe
O propósito do meu sentir
A verdade da minha alma

Deus, eu sei que tenho um sonho
Eu sei que ele é grandioso
Eu sei que ele me trará paz
Eu sei que ele fará sentido
O que serei daqui para frente
Apenas não consigo vê-lo claramente
Não consigo fazer dele uma escolha
Pois quero ser levado por ele

Deus,
eu espero pelo sonho
Qualquer um que avance
Qualquer um que me liberte
Uma ideia para abraçar
Uma dúvida para esquecer
Mas somos apenas um paradoxo
Eu preciso que ele venha para embarcar
Ele precisa que eu embarque para existir

Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 4 de abril de 2016

“Pressa” (11/03/2016)

Ligereza sim
Pois a língua é viva
E a vida curta demais
Falta em mim a destreza
De complicar a palavra
Para fazer versos tais
Vivo num tempo de avareza
No espírito da poesia
Na cabeça formada de intelectuais
Não me sobram muitas certezas
O mundo mudou de muitas maneiras
E o romance vai chegar tarde demais

Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 28 de março de 2016

“Mapa” (10/03/2016)

Minha esposa estava com dificuldade
De encontrar o endereço do céu
Sugeri a ela que ligasse para felicidade
Também pegasse emprestado aquela receita de mel
A vida pode ser uma fantasia vestida de realidade

Fiquei imaginando o GPS recalculando a rota
Pedindo para voltar duas vidas passadas
São 10 anos até o próximo caminho de volta
E a vida toda congestionada

Ela me disse que é para lá de São Mateus
Se tem santo no nome deve estar perto
Meu amor me jure por deus
Chegando por lá me vai garantir um teto
Que fique tudo pronto para aquele adeus

Não vai ter jeito
Vamos ter que pedir por direção
Alguém me disse para seguir dentro do peito
Foi a paz que me encontrou no coração

Ass: Danilo Mendonça Martinho

segunda-feira, 21 de março de 2016

“Os olhos gentis” (04/03/2016)

O olhar gentil levantou e esfregou-se o máximo que pode para enxergar o dia. Embora tarde permanecia escuro, era uma grande chuva cinzenta que o acordava. Então o olhar gentil estendeu a mão, sentiu seu gosto, sentiu seu cheiro, recebeu a chuva de braços abertos como fosse um dia de Sol. Com paciência ferveram a água e um pouco perdido no tempo assistiram a bolacha se desfazer em mil pedaços no fundo da xícara. Os olhos gentis não trataram nada naquela da manhã como um desastre, era muito cedo para desistir, e no fundo do chá encontraram a possibilidade do novo, do improvável e deram um gole na esperança. Saíram de casa sem o sufixo e ficaram na espera......do sonho, do amigo, do abraço, do desejo, da mudança, da vontade, do destino e do ônibus. Tudo que se espera demora um pouco mais e os carros começaram a jogar água para calçada. Com os pés molhados o olhar gentil titubeou, mas escondia preocupações mais profundas e não havia espaço para rancores. Deu sinal, a vida parou, subiu e seguiu. Toda vez que se caminha pode ser para qualquer lugar, mas invariavelmente só partimos com lugar certo, que com muita sorte pode coincidir com o que queremos. O solhos gentis pairavam sobre aquele mesmo lugar que viram milhares de vezes antes sem jamais pesar a rotina, a nostalgia de tudo que já não era, a alegria esmaecida em paredes sem cor, memórias de um corredor vazio, um agora tão inerte quanto o passado. Não fosse a lágrima iluminar o caminho, desfocar e colorir a realidade, os olhos gentis não teriam seguido mais nenhum passo. Encontrou um sorriso para abrir a porta, cumprimentar os amigos e até mesmo acreditar que poderia ser diferente. Como antes o cansaço se abateu sobre o olhar gentil, corpo e alma entraram em um acordo, e ele por um momento se fechou imaginando ser a última vez que deixava aquilo para trás. Na volta para casa observou inúmeras vidas na falsa percepção de felicidade. Tudo por aqui somente parece até realmente abrir os olhos. Por isso aquele par era gentil com a ilusão, era melhor enquanto durasse. Na casa vazia, no silêncio da mente, o olhar guardou um último esforço, no fundo do espelho enxergou a chama, gravou na memória e descansou. Consigo a certeza de que o sonho poderia acordá-lo novamente. 

Ass: Danilo Mendonça Martinho